quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Imperfeito





Sou cego por não ver
A verdade que não posso conceber
A beleza do ser que permeia e abrange
Que passa e permanece
E estabelece o que vejo sem saber

Sou cego por não ver
O que há em mim por dentro
Ao centro e ao redor
E nem o chão que piso percebo
Sem entender, ao menos, o que represento
Tampouco o alento
Que move meus pés de tempo

Sou surdo e não posso ouvir
O som que toca sem parar
Pela correnteza dos rios
Na dança das ondas do mar
No grito dos pássaros a zunir no espaço estrito
Andamento de água parada
E velocidade de fogo ao vento

A canção que flui do universo
Na profundidade do infinito incerto
Sou assim de nascimento
De herança e sofrimento
Condenado ao silêncio
Dos mudos e detentos

Sou surdo e não posso ouvir
A vibração das cordas do coração
O soar das notas na alma dos instrumentos

Sou feito
Imperfeito
Por assim dizer
por não ouvir e nem ver



video

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Além da lua









Não era algo que eu esperava
O que foi bom e tão feliz
Não é de ouro, nem reluz
E não tem nada que seduz
E mesmo assim eu me encantava
E mesmo assim eu viajei
Naquilo que se fez

Não foi o canto da sereia
Nem foi um raio de luar
Não foi mandinga que pegou
Nem foi um sonho que passou
Não sei dizer o que me fez cantar
Não sei, não sei
Me fez cantar
Não sei o quê

O que está além da lua
Que não se pode ver
Mas que se sente
O que se pode crer
Mas não se entende
O amor passou na minha rua



segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Saudade








Vou gastar meu tempo
Me ocupar em coisas inúteis
Viajar
Se minh'alma ao vento
Vai fluir
A minha alegria descobrir

Vou escavar a saída
De estar aqui
Vou esquecer da ferida
De dar dó de mim

Vou me perder na avenida
De andar sem fim
Vou sem pisar
Nas pegadas do que vi

Vou estar atento
De escolher
As palavras certas
Pra dizer
Vou ficar tão perto
De sofrer
Coração aberto
Pra te ver

Sem querer
Me prender
Eu fugi
Saudade invade

Sem saber
O que sentir
Eu fugi
Da saudade por ti

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Cantiga de roda





Passa o tempo pelo mundo
Gira a roda devagar
Passa por lá
E por aqui

Passou raso e profundo
Eu nem mesmo vi o fim
Vôo de passarim
Vou sem pra onde ir

Volta e meia muda tudo
Ninguém tem tudo nas mãos
Bate as asas passarinho
Bate a vida coração

Quando a rota desnorteia
De quem tem fé na razão
Come a paixão na sua ceia

Quando a vida revolteia
Meia volta e faz chorar
Quando a morte nos rodeia
Quando a sorte nos levar

Quando à noite é lua cheia
E saudade atormentar
Quando então nos dermos conta
De mais nada pra contar

Passarás
Passarás
Feito tudo em teu lugar

Eu não quero desta vida
O que não possa levar

Passarás
Passarás
Tão ligeiro passarás

Não se perca meu amigo
Não se deixe enganar

Corre a água para o rio
Corre o rio para o mar
Corre a noite
Corre o dia
Corre, corre o sem parar

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Valsa vadia





Canção tão leve e vadia
Que fez da noite o seu dia
Irradia a minha tua luz
Tua valsa-pluma me conduz
À dança
À vida
À esperança

Viajar por teus lugares
Por caminhos que mostrares
Pela trilha que me fez sonhar
E tocar o dom de se fazer
O som que faz nascer
O meu cantar


  Valsa Vadia by Joao Marinho Junior

Alto da Boa Vista







Mirante no alto da serra
Paisagem de mar e de velas
O sol nesta tela é lindo
A tarde vai se rindo

Ruído de ondas que esbararram
Em pedras se chocam e calam
Respiro energia
E bebo a poesia
Que ela, harmonia
Exala sem fim

Luz que vem dela
Lá da janela
Que se abre dentro de mim

Mosaico de coisas tão belas
Cidade, floresta, quimeras
A vida, quem dera
Fosse a primavera
Eternamente assim

Luz que vem dela
Lá da janela
Que se abre dentro de mim



terça-feira, 14 de outubro de 2008

Canto triste







Uma luz existe
Nesta noite triste
O coração bate que nem maltrata
Na ilusão de quem se mata

Sofre na loucura
Da noite escura
Ao ver que a lida deste mundo
Não tem cura

O amor perdoa
quem na vida à toa
Desbrava os mares
Padece em naufrágios
expõe-se a dor
E a seus estágios

Morre a esperança
De quem cansa
Pois desta vida não se leva
Nem lembrança

domingo, 12 de outubro de 2008

Canção de barro








Pedra sem forma sem fronteira
Atrás do dia a noite inteira
Beira à beira de um lugar

Poço sem fundo sem ladeira
Mundo no oco na ribeira
Beira à beira de um olhar

Vento assobia o silêncio
A poesia lia o tempo
Faz melodia em sentimento
Peixe pescador na criação

Canção de barro
Água e vinho
Passarinho de arribachão

Pedra rara



O amor
Tem gosto em flor de colibri
Tem a cor na pele de jasmim
Tem cheiro de hortelã
Na brisa da manhã
Tem forma em rio
De água corrente
Em vôo livre de planador

O amor
Um fogo intenso a não ter fim
Não apaga nem se esconde
Tudo abraça
Nada o corrompe
É de todos mas de um só
Nunca será

Que se busca
Que se basta
Que se medra
Em mão de semeador

Que não mede
Que não gasta
Que não tem valor

O amor
sublime dor selada em mim
Lua vaga minguante
Mina e fonte
Meta distante
Luz farol que acende a trilha ao pescador

Que se busca
Que se basta
Que se esmera em mão de escultor

Que é pura
Pedra rara
Que não tem valor

Que é cura
mas não sara
É assim o amor

Na margem do rio




As palavras me atravessam
Feito um barco nesse rio
Na imagem de uma tarde
Ou na margem do vazio
A canoa move lenta
Ao vento de um assovio
Vai na direção do nada
Pela solidão de um fio
Eu caminho pelo mundo
Bem no fundo
Bem ao centro
Tudo roda nesse rio
Tudo e nada ao mesmo tempo
Eu caminho pelo mundo
Feito o homem da canoa
Se ela vira e ele nada
Se ele nada e ela voa
Eu caminho pelas pedras
Feito o homem pelas águas
Ele morre o dia parte
Eu não sigo e fico às trevas
Bebo o vinho do meu pranto
Sugo a essência do momento
Tudo roda nesse rio
Tudo e nada ao mesmo tempo